Alerta aos pais

Em 2008 estourou nos jornais a polêmica das toneladas de carga ideológica presentes em livros didáticos comprados pelo MEC e usados em escolas particulares. A Coleção Nova História Crítica, de Mario Schmidt, foi o maior alvo das pedradas: o livro do homem dizia que a Princesa Isabel era “feia como a peste e estúpida como uma leguminosa”.

O Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil tem a ver com essa polêmica. Foi só diante dela que eu botei na cabeça que precisava achar uma editora para o meu projeto. Aproveitei o gancho dos jornais para propor o livro ao Pascoal Soto, então editor da Planeta, que adorou a ideia e depois me levou para a editora Leya.

Tanto tempo depois, era de esperar que a coleção Nova História Crítica estivesse relegada a prateleiras empoeiradas. Mas o livro ainda vende a rodo. Quem me disse foi o amigo e leitor Márcio Leopoldo Maciel, do Rio Grande do Sul. Como o Márcio conta no blog Filosofia Cirúrgica, no ano passado só o MEC comprou 77 mil cópias do livro do Mario Schmidt. Nasce assim uma “geração de doutrinados”, como afirma o Márcio na excelente análise que reproduzo abaixo.

Uma geração de doutrinados

Por Márcio Leopoldo Maciel

Ele é um dos maiores sucessos do mercado editorial brasileiro. Em 2007, segundo dados da Revista Época, seus livros alcançaram 10 milhões de exemplares vendidos. De acordo com seu editor, eles são usados por mais de 50 mil professores, tanto em escolas públicas, quanto em escolas privadas. Desde 1998, estimativas do MEC, mais de 20 milhões de estudantes usaram a coleção de livros didáticos. O MEC contribui bastante, só em 2005 adquiriu 3,5 milhões de exemplares. Em 2010 as compras foram modestas, mesmo assim, o MEC gastou 2,5 milhões de reais na compra de 77 mil exemplares do volume único para o Ensino Médio. Parece pouco, mas esses números colocam o título entre os mais comprados em 2010 pelo MEC para o ensino de História. Assim, a dicotomia abaixo é conhecida pela maioria dos estudantes brasileiros.

Antes de ligar o milagre ao santo, vejamos o que o MEC diz sobre um dos livros do autor. No Catálogo do Programa Nacional do Livro para o Ensino Médio de 2008, material que auxilia os professores na escolha dos livros didáticos que serão adotados nas escolas, podemos ler o seguinte:

[a obra] problematiza o conhecimento histórico e valoriza a diversidade de possibilidades interpretativas.

É priorizado o ensino voltado para a formação do aluno como um cidadão autoconsciente e crítico.

Há preocupação com a construção da cidadania.

Embora não haja uma discussão explícita sobre conceitos e noções, alguns deles são empregados de forma adequada ao longo da obra.

Embora as imagens acima não façam parte do livro analisado pelo MEC, o conteúdo dele é praticamente o mesmo das outras obras do autor, obras em que encontramos as imagens. Se as palavras ainda significam o que normalmente significam e se não houve torções semânticas nos termos usados pelo MEC na avaliação, os livros da coleção Nova História Crítica, de Mario Schmidt, desmentem de modo cabal o que vai escrito acima.

Primeiro é importante fazer um esclarecimento: em 2007 houve uma grande polêmica envolvendo os livros de Mario Schmidt.  O diretor da Central Globo de Jornalismo e colunista do Jornal O Globo Ali Kamel escreveu um artigo denunciando a doutrinação ideológica presente no livro Nova História Crítica 8ª série. Na ocasião, diversos setores da imprensa trataram do tema, entre eles o Estado de São Paulo, a Folha de São Paulo e a Revista Época, da qual extraí alguns dos números citados. O jornalista Reinaldo Azevedo também deu destaque à polêmica,  é dele o crédito pela pesquisa das compras do MEC no ano de 2005. Olavo de Carvalho, já em 1998, alertava para o conteúdo doutrinário da Nova História Crítica.

Um segundo esclarecimento: li diversas reportagens, artigos de jornal e entrevistas sobre os livros de Mário Schmidt. Das reportagens quero destacar as opiniões dos especialistas (a maioria professores universitários) que pareciam concordar em um ponto: todo e qualquer livro é ideologicamente orientado. Assim minimizavam as críticas ao conteúdo doutrinário da coleção Nova História Crítica. Concluo que ou eles desconhecem os livros, ou concordam com o que está lá, porque o que está lá vai muito além do “um pouco de ideologia todo livro tem”.

Nos blogs, o mais criticado foi Ali Kamel e, por tabela, a Rede Globo. Segundo muitos, “queriam proibir o melhor livro de história”. O principal argumento de alguns blogueiros: o jornalista havia selecionado pequenos trechos do livro, o que altera a percepção da obra. Além disso, dizem, ele escondeu as críticas que Mario Schmidt faz ao socialismo. Essa tese é falsa. Em favor de Kamel poderia ser dito o óbvio, ele não poderia reproduzir o conteúdo de um livro em um artigo de jornal.

Naquela ocasião o MEC avisou que o livro de Mario Schmidt havia sido rejeitado por uma comissão avaliadora e não faria parte do guia do livro didático para o Ensino Fundamental em 2008. Entretanto, como vimos, o livro Nova História Crítica para o Ensino Médio – volume único participou normalmente do processo e foi recomendado pelo Catálogo. No ano passado, registre, o MEC adquiriu 77 mil exemplares desse mesmo livro.

A COLEÇÃO NOVA HISTÓRIA CRÍTICA

A linguagem é chula, o maniqueísmo é escancarado, há simplificações grosseiras, deturpações e omissões propositais. E, claro, muita doutrinação ideológica.

Dizem que um bom texto não leva tantos adjetivos, mas como qualificar certas coisas? Ora, justificando cada um dos adjetivos empregados. É o que pretendo fazer.

Comecemos pela foto acima, talvez o mais simbólico. Seria irônico se não fosse trágico constatar que um autor dito humanista e claramente marxista reificou um ser humano para satisfazer seus propósitos ideológicos. Transformou um indivíduo em coisa em nome de seu proselitismo político vulgar. Ali não há uma crítica à sociedade capitalista, ali há, sim, uma evidente exploração da condição lamentável daquele homem. É pior, Schmidt força o indivíduo a debochar de sua própria condição. O que ele diria, que os fins justificam os meios? Seria coerente com a ideologia que defende. A crítica em si é esdrúxula do ponto de vista histórico, político e econômico, mas, mesmo assim, se ele pretendia fazê-la, que a fizesse sem recorrer à piada de muito mau gosto. Ele poderia ter exposto a imagem e ter dito que aquela situação é causada pelo capitalismo ou pelo neoliberalismo. Continuaria errado, mas não seria tão desumano. Deixo aqui um recado ao leitor: se o teu sistema moral permite esse escárnio, teu sistema moral permite muitas coisas. Infelizmente aquela imagem não é a única nos livros da coleção Nova História Crítica, observe:

(clique nas imagens para melhor visualizá-las sem sair desta página) 

Segundo o MEC, no Guia de 2008, no livro é “priorizado o ensino voltado para a formação do aluno como um cidadão autoconsciente e crítico”. Temos um problema semântico aqui. Aliás, dois. O que significa para o MEC ‘autoconsciente’ e ‘crítico’? O indivíduo ‘autoconsciente’ é consciente de que? É uma questão importante. O problema da palavra ‘crítica’ é pior. No Dicionário Houaiss, uma de suas acepções é “capacidade de julgar, de examinar racionalmente livre de preconceitos e sem julgamento de valor”, porém, sabemos que ‘crítica’ é usada em alguns contextos pedagógicos como adoção de certo conteúdo ideológico muitas vezes eivado de preconceito e dogmatismo. A apresentação de Ronald Reagan abaixo se encaixa em qual definição?

Compare o que você acabou de ler com aquilo que o MEC afirma sobre o livro: [a obra] problematiza o conhecimento histórico e valoriza a diversidade de possibilidades interpretativas. É possível qualquer interpretação além daquela em que Reagan foi um idiota nazista? O que vai acima não uma exceção, é a regra. O maniqueísmo do livro não é só perceptível, ele está na letra fria do texto. O que Mario Schmidt diz sobre a visita de Reagan à Alemanha é, no mínimo, escandaloso. Aliás, no livro não há qualquer referência ao discurso de Reagan em frente ao Portão de Brandemburgo em 1987. Sim, aquele discurso em que Reagan diz“Senhor Gorbatchev, derrube este muro!” Um dos fatos mais relevantes do Século XX é sonegado dos estudantes, que recebem a versão “Reagan foi à Alemanha louvar seus heróis nazistas”.

De qualquer forma, os alunos não entenderiam o pedido de Reagan, pois segundo Mario Schmidt, os americanos foram os principais responsáveis pela construção do Muro de Berlim. Isso mesmo. A história resumida é a seguinte: no fim da Segunda Guerra os americanos estavam ricos, os russos, arruinados pela invasão nazista. Assim, os americanos puderam investir na Berlim Ocidental e criaram a falsa ideia de prosperidade capitalista. Os russos, acuados, construíram o muro. Schmidt diz que nada justifica a construção do muro, mas ele já havia justificado. O procedimento é amplamente utilizado por Schmidt no relato de diversos eventos históricos.

Preste a atenção no seguinte trecho, o contexto são as ditaduras na América do Sul, mas Schmidt está falando do Brasil: “O que a ditadura teve de bom” – “Mas as ditaduras não tiveram nada de bom”?, as pessoas costumam perguntar. Na verdade essa é uma falsa pergunta pois não leva em conta que o positivo serviria de desculpa esfarrapada para o negativo.” Uma flagrante contradição com o conteúdo dos livros, o que manifesta certo desdém pela inteligência dos estudantes, já que Schmidt gasta muitas páginas para propagar a superioridade intelectual, moral e econômica das ditaduras socialistas e a infalibilidade de algumas de suas lideranças. As críticas que ele faz são pálidas e laterais, diluídas pela imagem perfeccionista que constrói do socialismo.

Não é preciso provar que os livros são pura doutrinação ideológica, isso está escrito em um deles. Em Nova História Crítica da América podemos ler: “Contra a História Tradicional (HT). A História Tradicional nos faz decorar os heróis da classe dominante.”  Schmidt está entre aqueles historiadores que acreditam que apelar para a “luta de classes”, ou qualquer outro conceito, torna a História 100% permeável. A História aceita muitas interpretações, é verdade, mas não todas as possíveis. Algumas são risíveis porque precisam apagar centenas de fatos para manter a versão, a fábula, de pé.

Repare no herói abaixo, Che Guevara aparece associado ao que os jovens normalmente apreciam. Ardil recorrente nos livros, forçar a crença de que para ser descolado, inteligente e humano é preciso ser de esquerda.

 

Em um quadro destacado “O QUE PENSAVAM OS JOVENS DOS ANOS 60” (nas entrelinhas: O QUE VOCÊ DEVE PENSAR), Schmidt apresenta seu ideal de jovem (um roteiro para compreender os livros). Ele pergunta: “O que você estaria pensando se fosse um estudante nos anos 60?” E responde: “Provavelmente você seria de esquerda. Teria lido a História da Riqueza do Homem, de Leo Huberman… Lenin seria sempre citado. Che Guevara venerado como herói. Você teria ódio dos EUA,mas desconfiaria que o socialismo soviético era burocratizado.”  E ele termina dizendo: O problema é que muitos [daqueles jovens] se tornariam, nos anos 90, empresários gananciosos, executivos cínicos… Aí está o que ser e o que não ser, o que pensar e, principalmente, o que odiar.

O cerne da obra, falo especificamente de quando trata da política nos séculos XIX e XX, pode ser assim resumido: o capitalismo é nefasto; os EUA, a expressão desse mal. Qualquer coisa positiva vinda de um ou de outro é obra do acaso, a motivação certamente era pérfida. Por outro lado, o socialismo é o sonho possível, obra dos homens sábios e de bom coração. Infelizmente foi vítima dos EUA e da burocracia stalinista; porém, nada diminui o fato de que a intenção era nobre. Nada! Aliás,“havia socialismo naquilo?”, isto é, na URSS, é uma das poucas perguntas não retóricas dos livros. Um dos raros momentos em que o autor não induz a resposta. É a dúvida que interessa, então ele apresenta cinco versões para o que havia na URSS. Entretanto, não há dúvidas de que o socialismo em Cuba e na China foi um sucesso. Esses dois países legaram à humanidade grandes estadistas, Fidel Castro e Mao Tsé-tung.

 

A Venezuela começa sua profunda transformação social (semiótica)

O que há em comum entre Che, Mao e Chávez? São de esquerda, certo, mas além disso? São intelectuais! Outra das dicotomias apresentadas por Schmidt, a esquerda reúne a nata intelectual do planeta, na direita só há brucutus. Che escreveu sobre economia e política; Mao foi professor, também autor de livros sobre economia e política; Chávez, filho de professores, formado em Sociologia e pós-graduado em Ciência Política.

Marcuse, Althusser, Lukács, Gramsci, Leo Huberman, o estudante que utilizar a coleção Nova História Crítica ficará com a impressão de que a teoria política no século XX se resume ao que é discutido por esses autores e mais alguns outros, todos de esquerda, em sua maioria comentaristas da obra de Marx. Hayek e Friedman são citados en passant como ideólogos do neoliberalismo em um pequeno quadro que “explica” as ideias políticas de Reagan e Thatcher. Na maioria dos livros de Schmidt, esse quadro é ilustrado pelas imagens daquele homem “dizendo” “Aí, galera: viva o capitalismo neoliberal!” (ou liberal, dependendo do contexto) e daquelas crianças “dizendo” “ainda bem que meu país não é socialista…”

Repare como os conceitos são adequadamente apresentados no pequeno trecho abaixo:

ESQUERDA X DIREITA (a definição de Mario Schmidt)

esquerda é favorável às transformações sociais, está sempre querendo mais direitos para os trabalhadores. Os Social-Democratas (socialistas reformista) eram de esquerda. Os comunistas eram de extrema esquerda.

centro é uma espécie de direita moderada.

direita é bastante conservadora, repudiando mudanças sociais profundas e dizendo que medidas a favor dos trabalhadores prejudicam à nação. A extrema-direita defende ditaduras violentas e o fim dos direitos mais elementares do povo. Os fascistas são de extrema-direita.

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17 respostas para Alerta aos pais

  1. Fernando disse:

    Desde que li as criticas de Richard Feynman sobre como era feita a escolha dos livros didáticos nos EUA fiquei em dúvida se aqui não era pior…

    Ps: Consegui induzir a bibliotecaria a comprar seu livro, li-o com muito prazer. Parabens!

  2. Miqueias disse:

    Engraçado não é? Simplesmente é o livro didático MAIS USADO no Brasil. Não adinada dizer que a culpa é do MEC, os professores tem LIVRE ARBÍTRIO para escolher o livro que quiserem. Esse, sem dúvida, é o único livro de História que não se vê escrito “é isso e pronto”, e eu já li vários.
    Os alunos amam esse livro, simplesmente porquê é facil de ler, parece que o autor conversa com o leitor. Quanto ao Reagan, em muitos livros já vi, não diretamente, na cara mas os escritores, em seus textos querendo dizer: “Fidel é malvado e Reagan é bonzinho”.
    Vergonha na cara de quem tá fazendo ESSE ARTIGO, POIS ELE SIM É IDEALISTA, uma coisa é ser idealista, outra é FALAR A VERDADE, COMO MARIO FAZ. Troféu joinha pra vocês, i**ot*s.

  3. Igor Henrique disse:

    Ali Kamel (Não Somos Racistas)
    Carlos Alberto Lima Menna Barreto (A Farsa Ianomâmi)
    Laurentino Gomes (1808 / 1822)
    Leandro Narloch (Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil)

    Considero esses, livros essenciais para qualquer um que queira se livrar do pensamento ordenado que veêm tentanto incutir em nossas mentes. Livros importantes, que mostram que somos um país diferente, com heróis forçosamente anônimos e de rica história. Divulguem, leiam, emprestem, entrem em comunidades, twitem, escrevam como sub em seus msn’s. Se não fizermos nada, se guardarmos essas informações somente para nós, então todo o esforço, toda a luta, toda a dificuldade que esses e outros escritores tiveram terá sido em vão.

  4. Agora q me lembrei q estudei com esse livro no colégio. Ele livro parecia ser bem didático e com piadinhas levar os alunos. Eu me lembro de ter gostado dele na época…
    Mas ainda era alheio sobre as várias formas de se contar a História. Q dependendo as pessoas podem puxar para a sua ideologia e pender…
    Ultimamente, um feixe de luz veio aos meus livros. Agora estou irrigado por Hayek, Mises, Rothbard… E a verdadeira História vai se desvendando.
    Parabéns pelo artigo, Marcio. E o seu livro, Narloch, está na minha lista p/ ser lido.
    abs.

  5. Vicente Alencar disse:

    Que absurdo! Esse livro é praticamente uma “terapia aversiva”, considerando-se que é lido por crianças e adolescentes.

    “A china alimentou e vestiu toda a sua população…”? Ele chega a mencionar o great leap forward?

  6. Haylla Reis disse:

    realmente, a escolha pela coleção em tela é ridicula!
    mas eu, quando estudei o fundamental, também utilizei livros parecidos e nem por isso conclui que o socialismo ou comunismo é a melhor opção. devo isso aos meus professores que estavam preparados para passar o conteudo de forma “diferente”.
    adorei o artigo, mas acho que exagerou um pouco… ficou parecendo que simplesmente é contra mario schimidt, enquanto prefiro pensar que a intenção era alertar para o perigo de ser imparcial.
    de qualquer forma, parabens narloch!
    eu adorei o seu livro!!!

  7. Bill disse:

    “A linguagem é chula, o maniqueísmo é escancarado, há simplificações grosseiras, deturpações e omissões propositais. E, claro, muita doutrinação ideológica.”

    Ué! Mas é a descrição certinha do seu livro, Narloch.

    • Felipe Flexa disse:

      Bill, o livro de Narloch não é didático, homem de Deus! E não há linguagem chula alguma. É um livro que tem um viés, porreta!: desmistificar certas opiniões sobre a História do Brasil. Não há nada inventado ali.

    • Kylmer disse:

      Só que ele deixa isso claro o livro inteiro. Ele é propositalmente tendencioso, porque ironiza, por meio desse recurso, o que os autores fazem nos livros de história.

  8. Ozy disse:

    Narloch,
    Primeiramente gostaria de dizer que embaso minhas opnioes no volume único do citado livro, Nova Historia critica, editado em 2008, que expira, se não me engano, em 2011.

    Em segundo, concordo que há parcialidade no livro, mas que não chega ao nível de doutrinação, justamente porque a doutrinação implica em uma visão acrítica de um fato ou conjunto de ideias.

    Por exemplo, se o livro for folheado, basta olhar a parte da Historia contemporânea, se encontrarão trechos como:
    “Toda a população da URSS tinha que obedecer a Estado e ao Partido Comunista chefiado por Stalin. Quem discordasse do governo era preso. A Sibéria ficou lotada de campos de concentração. As eleições se tornaram um jogo de cartas marcadas, sempre vencidas pelos candidatos oficiais”(Pagina 512-Capitulo 42)

    “Mao Tse-Tung tinha muito de comunista tradicional, ou seja, daqueles que acham que o movimento popular só é bom se for rebocado pelo Partido. Estimulou as mudanças para reassumir a liderança da China. Alcançado o objetivo, a partir de 1969 passou a frear a Revolução Cultural. Um verdadeiro culto a personalidade foi instaurado na China, talvez mais exagerado do que o culto a Stalin.”(Pagina 710-Capitulo 52)

    “Enquanto sonho, realmente maravilhoso, nao é mesmo? Mas será que esse sonho marxista nao seria uma utopia? Ou algo que na realidade poderia ser transformado em pesadelo? Para a maioria dos homens e mulheres deste começo do século XXI parece que sim: o socialismo nao passaria de um projeto falido do passado.”(Pagina 393-Capitulo 34)

    Há de se concordar que trechos como esse revelam um posicionamento critico do autor contra o socialismo enquanto concepção e pratica e que, portanto, desmente a afirmativa simplista de que
    “Schmidt gasta muitas páginas para propagar a superioridade intelectual, moral e econômica das ditaduras socialistas e a infalibilidade de algumas de suas lideranças.”

    Simplista, porque omite as criticas do autor a sua própria ideologia, e contraditória pois comete o erro de Schimidt: parcialidade.

    Ora, se esses trechos que citei anteriormente existem, porque nao foram apresentados ao publico leitor, que no geral não teve a oportunidade de ler a coleção? Se o autor omitiu esses fatos pois os considerou dispensáveis, então transgrediu a ética jornalistica, ao nao ouvir ou apresentar os dois lados da questão. Se, por outro lado, o autor do artigo sequer se deu o trabalho de pesquisar o assunto, e, dessa maneira, ler o livro, então foi incompetente no exercico de sua profissão, que tem objetivo por alcançar a verdade.

    Dessa maneira, acho que seria necessário que tanto você, Narloch, quanto seu amigo, revisassem e analisassem com mais calma a questão sobre a qualidade dos livros didáticos brasileiros, que, repito, contem sim erros de seus autores.

    Atenciosamente, Victor Hugo Abilio Coutinho

  9. Alexander disse:

    Obrigado Sr. Victor Hugo! Pela gentil ponderação de seus argumentos falaciosos e por ter nos fornecido , ainda que eufemisticamente, seu patético atestado de extrema burrice (ou seria candura?). Em relação ao “simplismo” das críticas levantadas por Narloch e colaborador, veja que o núcleo da proposta – embora coerente e simples (não simplista) – é o historicismo e o maniqueísmo da obra de Schmidt (tão flagrante que somente um espírito de toupeira estúpida e drogada poderia deixar-se ludibriar pelo forjado”posicionamento crítico” daquele autor contra o socialismo). Ademais, a “crítica” ao estalinismo pelos revisionistas socialistas pos-modernos nada mais é do que um sentimento fraternal de irmãos que um dia discordaram somente no que se refere a aplicação de um método ou estratégia (socialismo em um só País ou Internacional?), no entanto, a base ideológica totalitária permanece a mesma (Stálin errou, mas ainda somos irmão). Esse é o teor da “critica contra o socialismo” do senhor Schmidt – um embuste que ainda impressiona algumas bestas (que enchem suas barrigas e mantêm suas cabeças ocas), ao passo que outros, dissimulados que são, forjam uma “oposição ideológica” com o intuito de “moralizar” o socialismo (revolucionário e/ou moderado), projetando uma imagem coletivista/altruísta e até plural que não existe. O método de amostragem (recolha de trechos ou amostras da cantilena esquerdista de Schmidt) proposto por Noarloch e colaborador foi definitivamente eficaz no combate justo pela verdade dos fatos contra aquele tão manjado discursinho esquerdizante, frequentemente intoxicado pelo delírio marxista de interpretação da História. Abaixo a tirania da autoridade coletiva!

    • Ozy disse:

      Rapaz, se a reportagem resume o livro de Schmidt a um embuste ideológico, omitindo os
      trechos como os que eu postei, ela torna-se simplista sim, pois reduz a complexidade do livro a uma mera tentativa de doutrinação.

      Se houvesse de fato doutrinação, jamais haveriam críticas a Stalin, Mao ou a potencialidade do socialismo e comunismo. Seriam apenas vangloriados e ponto final.

      Agora isso não implica que não haja equívocos no livro, a reportagem, nesse ponto, está correta. Isso, no entanto, não justifica a omissão das tentativas, bem sucedidas ou não, do Mário de relatar a História de uma maneira crítica.

      Finalmente, gostaria de relembrar que o totalitarismo não é inerente ao socialismo. Assim, como podem existir ditaduras socialistas também podem existir ditaduras capitalistas.

  10. xSGBDx disse:

    Existe carga ideológica em qualquer livro didático, mas só é ‘ideologia’ aquilo que vocês não gostam, não é mesmo? Haja hipocrisia nessa gente. Ideologia está em todo lugar, não existe neutralidade.

    • É verdade, neutralidade não existe. Mas esses livros se fingem de neutros. O grande problema é posarem de livros didáticos neutros e científicos. Não se declaram abertamente “guias esquerdistas da história do Brasil”, como deveriam. Os meus livros, por exemplo, também são parciais e nada neutros – mas dizem isso já no título. Abraço!

      • xSGBDx disse:

        Como o Ozy nos mostra, os livros didáticos de Mário Schmidt não tem nada que façam merecer o apelido de “guia esquerdista”, ao contrário, às vezes tem posições extremamente anticomunistas. Assim como também tem posições anticapitalistas, antifascistas, etc. Além dessa característica, ele procura contar a história de uma maneira mais fácil, com linguagem popular, como se estivesse conversando com o aluno; isso não é errado, o problema é que acaba fazendo afirmações sem muito comprovação e só coloca a visão dele. Não que os outros profissionais que escrever para livros didáticos também não coloquem apenas suas visões, mas esse tipo de material, pelo menos nas disciplinas de Humanas, deveria mostrar ao aluno todas as possibilidades, todas as versões de um mesmo fato; e se ele for contraditório, incitar o debate/pesquisa/leitura/etc. Infelizmente, não conheço uma apostila assim.
        Mas… Por que polemizar apenas com livros que contenham conteúdo supostamente “marxista” (que na maioria das vezes está mais para trotskismo, uma ideologia revisionista e oportunista)? E os livros com afirmações preconceituosas sobre, por exemplo, o comunismo, URSS, Stalin, etc.?

      • xSGBDx disse:

        E as afirmações da segunda imagem não são propaganda comunista, são fatos baseados em evidências reais. O problema é que pelo livro ser muito coloquial, não dá margem para a comprovação de muitas afirmações (tanto de que são verdadeiras ou falsas).

      • xSGBDx disse:

        Errata: na minha primeira resposta a seu comentário, onde se lê “contraditório”, lê-se “controverso”. 🙂

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