O facão dos índios isolados

Uma ONG internacional liberou ontem fotos de índios isolados da fronteira entre o Brasil e o Peru. Quem olha as imagens de perto toma um susto: uma pequena índia (parece uma índia) segura um baita facão de gaúcho. É uma ótima prova de que aqueles não são índios “completamente isolados”, como se divulgou. No contato entre as tribos, a tecnologia ocidental chegou antes que os próprios ocidentais – e os índios trataram de agarrá-la como quem está desesperado para sair do Paleolítico. O finzinho do texto abaixo, um trecho do Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, mostra que faz um tempo – uns cinco séculos – que isso acontece:

A história tradicional diz que os portugueses deram quinquilharias aos índios em troca de coisas muito mais valiosas, como pau-brasil e animais exóticos. Isso é achar que os índios eram completos idiotas. Aos seus olhos, nada poderia ser mais fascinante que a cultura e os objetos dosvisitantes. Não eram só quinquilharias que os portugueses ofereciam, mas riquezas e costumes selecionados durante milênios de contato com civilizações da Europa, da Ásia e da África, que os americanos, isolados por uma faixa de oceano de 4 mil quilômetros, não puderam conhecer. Comprar aqueles artefatos com papagaios ou pau-brasil era um ótimo negócio. Seria como trocar roupas velhas que ocupam espaço no armário por um uma espada jedi de Guerra nas Estrelas.

Imagine, por exemplo, a surpresa dos índios ao conhecer um anzol. Não dependiam mais da pontaria para conseguir peixes, e agora eram capazes de capturar aqueles que ficavam no fundo. Um machado também deve ter sido uma aquisição sem precedentes. “As facas e machados de aço dos europeus eram ferramentas que reduziam em muito o seu trabalho, porque eliminavam a faina extenuante de lascar pedra e lavrar madeira, e encurtavam em cerca de oito vezes o tempo gasto para derrubar árvores e esculpir canoas”, escreveu o historiador americano Warren Dean. “É difícil imaginar o quanto deve ter sido gratificante seu súbito ingresso na idade do ferro […].” No começo,os portugueses tentaram esconder dos índios a técnica de produzir metais, proibindo os ferreiros de ter índios como ajudantes. Mas a metalurgia escapou do controle e se espalhou pela floresta. A técnica foi transmitida entreos índios a ponto de os europeus, quando entravam em contato com uma tribo isolada, já encontrarem flechas com pontas metálicas.

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10 respostas para O facão dos índios isolados

  1. Mospon disse:

    Além de um facão, ainda tem panela de ferro (pelo menos parece). Índios completamente isolados, mas inteligentes e conhecedores de tecnologia, como fundição de metais. Abraço.

    • Mas eles devem ter conseguido esses objetos, e não fabricado. Aquele facão tá bom demais pra ser artesanal.
      Parece que também têm folhas de bananeira – espécie que só chegou ao Brasil no século 16. Interessante!

      • Gabriel Sousa disse:

        Quem disse que as sociedades indígenas devem se manter estáticas??

        Não somos nós que criamos uma idéia de “índio ideal”??
        E WTF “Paleolítico”?! Isso é uma cronologia européia aplicada às Américas!!

        Narloch, obviamente lhe faltam conhecimento elementares para ratar do assunto. Em terra de cego, quem tem olho (bem sensacionalista, por sinal), é rei!!

  2. Caio Piffer disse:

    E tem uma panelinha no chão, proxima a uma pedra.

  3. Marcos disse:

    Coitados, deviam estar tentando sinalizar o avião justamente pra fazer contato e tentar conseguir mais facões e panelas, e o tal babaca da ONG não soube nem responder.

  4. Vitor disse:

    Off-topic, mas acabei de ler o Guia. Excelente, valeu os 40 paus, mas pô, o LIVRO É MUITO PEQUENO! NÃO DEU NEM PRA SEMANA! Acabou no domingo a tarde.

    Ah! E eu estudei história Moderna na escola pelo Livro do Mário Schmidt…nunca vi uma coisa tão preconceituosa, falsa e agressiva! Nova História Crítica, pior livro didático da história!

  5. Marcos disse:

    Aí, Narloch! Faz um ‘review’ desse livro novo sobre o sangüinário Che Guevara chamado ‘O verdadeiro Che Guevara e os idiotas úteis que o idolatram’. Tô louco pra saber o que você achou do livro. Parece que a febre de desmascarar os mito históricos está se espalhando pelo Brasil à fora.

    http://www.midiaamais.com.br/cultura/393-qo-verdadeiro-che-guevaraq-e-lancado-em-lingua-portuguesa

  6. Luciane Corá disse:

    Olá
    Quando li as referências do livro fiquei apavaroda…Piletti…

  7. Lisa Evaldt disse:

    Leandro,

    Esse post me fez lembrar de Macunaíma, o héroi sem caráter. Grande crítico foi esse Andrade! Quantas lições! Algumas ainda não aprendidas…

    Costumo dizer por aí que sou anarquista para combater meu lado reacionário! Será que faz sentido? Não importa. Só quero dizer que é sempre bom encontrar alguém disposto à questionar as “verdades” do país. Ou, como nos ensinou Karl Popper: “A ciência deve começar com os mitos, e com a crítica dos mitos”.

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