Livros para ler nas férias (2)

Basta buscar por “capitalismo” no Google Images para perceber como as pessoas odeiam esse sistema: só aparecem imagens de opressão e egoísmo. Pois, depois de ler As Seis Lições, de Ludwig von Mises, um dos mestres da escola austríaca de economia, fica fácil entender que deveríamos ter o sentimento oposto. O pequeno livro – menos de 100 páginas – funciona como uma terapia para anti-capitalistas. Reunião de seis palestras que Mises apresentou na Argentina em 1959, mostra como a economia da Revolução Industrial fez bem à saúde, à democracia, à liberdade. Tenho certeza que o livro mudará quase todo o seu jeito de pensar ou o deixará radiante por ter descoberto argumentos sobre coisas que sempre suspeitou.

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Não me contive e selecionei trechos longos. Para quem gostar, o livro é vendido por  R$ 15 pelo Instituto Mises Brasil. Também está disponível no site do excelente movimento Ordem Livre.

Álcool, drogas e Estado

A partir do momento em que começamos a admitir que é dever do governo controlar o consumo de álcool do cidadão, que podemos responder a quem afirme ser o controle dos livros e das idéias muito mais importante? Liberdade significa realmente liberdade para errar. Isso precisa ser bem compreendido. Podemos ser extremamente críticos com relação ao modo como nossos concidadãos gastam seu dinheiro e vivem sua vida. Podemos considerar o que fazem absolutamente insensato e mau. Numa sociedade livre, todos têm, no entanto, as mais diversas maneiras de manifestar suas opiniões sobre como seus concidadãos deveriam mudar seu modo de vida: eles podem escrever livros; escrever artigos; fazer conferências. Podem até fazer pregações nas esquinas, se quiserem – e faz-se isso, em muitos países. Mas ninguém deve tentar policiar os outros no intuito de impedi-los de fazer determinadas coisas simplesmente porque não se quer que as pessoas tenham a liberdade de fazê-las.

É essa a diferença entre escravidão e liberdade. O escravo é obrigado a fazer o que seu superior lhe ordena que faça, enquanto o cidadão livre – e é isso que significa liberdade – tem a possibilidade de escolher seu próprio modo de vida. Sem dúvida esse sistema capitalista pode ser – e é de fato – mal usado por alguns. É certamente possível fazer coisas que não deveriam ser feitas. Mas se tais coisas contam com a aprovação da maioria do povo, uma voz discordante terá sempre algum meio de tentar mudar as idéias de seus concidadãos. Pode tentar persuadi-los, convencê-los, mas não pode tentar constrangê-los pela força, pela força policial do governo.

Os artistas deveriam ser os mais ardorosos capitalistas

É verdade, obviamente, que grandes pintores e grandes escritores suportaram, muitas vezes, situações de extrema penúria. Podem ter tido êxito em sua arte, mas nem sempre em ganhar dinheiro. Van Gogh foi por certo um grande pintor. Teve de sofrer agruras insuportáveis e acabou por se suicidar, aos 37 anos de idade. Em toda a sua existência, vendeu apenas uma tela, comprada por um primo. Afora essa única venda, viveu do dinheiro do irmão, que, apesar de não ser artista nem pintor, compreendia as necessidades de um pintor. Hoje, não se compra um Van Gogh por menos de cem ou duzentos mil dólares.

No sistema socialista, o destino de Van Gogh poderia ter sido diverso. Algum funcionário do governo teria perguntado a alguns pintores famosos (a quem Van Gogh seguramente nem sequer teria considerado artistas) se aquele jovem, um tanto louco, ou completamente louco, era de fato um pintor que valesse a pena subsidiar. E com toda certeza eles teriam respondido: “Não, não é um pintor; não é um artista; não passa de uma criatura que desperdiça tinta”, e o teriam enviado a trabalhar numa indústria de laticínios, ou para um hospício. Todo esse entusiasmo pelo socialismo manifestado pelas novas gerações de pintores, poetas, músicos, jornalistas, atores, baseia-se, portanto, numa ilusão. Refiro-me a isso porque esses grupos estão entre os mais fanáticos defensores da concepção socialista.

O capitalismo ameaça os ricos, não os pobres

Se um inglês – ou, no tocante a esta questão, qualquer homem de qualquer país do mundo – afirmar hoje aos amigos ser contrário ao capitalismo, há uma esplêndida contestação a lhe fazer: “Sabe que a população deste planeta é hoje dez vezes maior que nos períodos precedentes ao capitalismo? Sabe que todos os homens usufruem hoje um padrão de vida mais elevado que o de seus ancestrais antes do advento do capitalismo? E como você pode ter certeza de que, se não fosse o capitalismo, você estaria integrando a décima parte da população sobrevivente? Sua mera existência é uma prova do êxito do capitalismo, seja qual for o valor que você atribua à própria vida.”

Não obstante todos os seus benefícios, o capitalismo foi furiosamente atacado e criticado. É preciso compreender a origem dessa aversão. É fato que o ódio ao capitalismo nasceu não entre o povo, não entre os próprios trabalhadores, mas em meio à aristocracia fundiária – a pequena nobreza da Inglaterra e da Europa continental. Culpavam o capitalismo por algo que não lhes era muito agradável: no início do século XIX, os salários mais altos pagos pelas indústrias aos seus trabalhadores forçaram a aristocracia agrária a pagar salários igualmente altos aos seus trabalhadores agrícolas. A aristocracia atacava a indústria criticando o padrão de vida das massas trabalhadoras.

Obviamente, do nosso ponto de vista, o padrão de vida dos trabalhadores era extremamente baixo. Mas, se as condições de vida nos primórdios do capitalismo eram absolutamente escandalosas, não era porque as recém-criadas indústrias capitalistas estivessem prejudicando os trabalhadores: as pessoas contratadas pelas fábricas já subsistiam antes em condições praticamente subumanas.


A velha história, repetida centenas de vezes, de que as fábricas empregavam mulheres e crianças que, antes de trabalharem nessas fábricas, viviam em condições satisfatórias, é um dos maiores embustes da história. As mães que trabalhavam nas fábricas não tinham o que cozinhar: não abandonavam seus lares e suas cozinhas para se dirigir às fábricas – corriam a elas porque não tinham cozinhas e, ainda que as tivessem, não tinham comida para nelas cozinharem. E as crianças não provinham de um ambiente confortável: estavam famintas, estavam morrendo. E todo o tão falado e indescritível horror do capitalismo primitivo pode ser refutado por uma única estatística: precisamente nesses anos de expansão do capitalismo na Inglaterra, no chamado período da Revolução Industrial inglesa, entre 1760 e 1830, a população do país dobrou, o que significa que centenas de milhares de crianças – que em outros tempos teriam morrido – sobreviveram e cresceram, tornando-se homens e mulheres.

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16 respostas para Livros para ler nas férias (2)

  1. walter disse:

    Não sei se é geral ou pessoal, mas aqui no meu pc não tá aparecendo o link pra compartilhar no facebook esse post com a dica do livro do mises.

  2. Búfalo disse:

    Este livro realmente parece interessante. Procurarei mais sobre ele em alguma livraria.

  3. Estou lendo seu livro agora, interessantíssimo! Me indentifiquei com a magnífica capa, com certeza inspirada no melhor disco de todos os tempos, Sgt. Peppers Lonely Heart Club Band, e ainda mais fascinante ter aproveitado a idéia de o enterro de McCartney ser descrito na foto do cd, ao colocar a bandeira do Brasil no local do baixo de McCartney.
    Uma das melhores descobertas que fiz este ano, sem dúvidas!
    Parabéns pelo livro corajoso que conta histórias que universitarios normalmente já conhecem [Algumas. Desconhecia o fato da Guerra do Paraguai que você citou], porém de forma mais intensa.
    Um forte abraço!

    Phelipe Sant’Anna M. – Sampa Capital

  4. Robson Cota disse:

    Aqui está o primeiro capítulo do livro (a lição 1):

    http://mises.org.br/Article.aspx?id=561

    O resto do livro se encontra no mesmo site, na seção “Biblioteca”. É só procurar o livro “As Seis Lições”.

    Esse site é ótimo pra quem quiser ter base pra defender o livre mercado.

  5. Robson Cota disse:

    Leandro, já leu 1808 e 1822, do Laurentino Gomes? O que achou?

  6. 40>0 disse:

    Olá,
    Achei muito estranho o exemplo do Van Gogh… A história de um pintor que não teve o menor êxito financeiro ou reconhecimento artístico é algo difícil de ser encarado como um argumento pró-capitalismo. A possibilidade de ser sustentado pelo irmão? Isso não é motivo para serem os artistas ardorosos capitalistas.

    • Oi, João.
      O autor usa o caso do Van Gogh pra dizer o seguinte: mesmo histórias de penúria como a dele são mais felizes que a vida num país socialista, onde Van Gogh mal teria a permissão para ser pintor.
      abraço e bom ano!

  7. Gunnar disse:

    Mas isso é típico dos comunas… a auto-contradição. Olavo de Carvalho explica bem essa técnica. Os caras não são os maiores defensores da liberdade, dos direitos humanos, brigam contra a “homofobia”, são inimigos da opressão e tirania, são contra a religião permeando a política, etc? Em uma parte do discurso sim. Mas ao mesmo tempo, apóiam as ditaduras islâmicas (o Irã, por exemplo), que é o extremo oposto disso em TODOS os quesitos. As ditaduras comunistas idem, exceto, talvez, pela questão do estado religioso.

    Aliás, Che, figura tão comum em camiseta de artistas pop, odiava o rock’n’roll e perseguia os “cabeludos subversivos”.

    Ou seja: os comunistas não só defendem um sistema que por si só já é falho e ilógico e na prática é assassino, opressor e empobrecedor, mais ainda por cima apóiam todos os os contrários dos poucos ideais de sua cartilha que seriam louváveis (e que até hoje só sistemas capitalistas conseguiram oferecer).

    Isso me leva à conclusão que, quem quer que se declare “de esquerda” só pode ser de duas uma: ingênuo ou vigarista.

  8. Gunnar disse:

    correção: “MAS ainda por cima”

  9. Deinis Alves de Sousa disse:

    Olá! Ganhei seu livro no meu aniversário, e gostei bastante. Sou um cara de esquerda, trabalho em estatal, e estudo ciências sociais numa federal. Mas não é por causa disso que sou a favor da desonestidade do revisionismo e da criação de heróis fajutos. Embora para quem convive com a academia seu livro seja bem simples, quase óbvia, para o leitor comum é uma boa chance de se aprender história. Ao explicar a versão não enviesada das nossas histórias, você ainda dá chances para os mais desavisados conhecerem as duas versões, isso é muito bom! Gostaria de elogiar a sua postura, que mesmo escrevendo para dar argumentos para a direita, serve também para abrir os olhos da esquerda para o mundo real, tudo isso graças a sua simplicidade e sua honestidade.

    *em tempo:
    -Marx elogiou bastante o capitalismo, e a primeira obra dele foi mais ou menos parecida com a sua: lascou o pau nos esquerdistas e apresentou uma versão menos romântica da realidade, no manuscrito “A ideologia alemã”.
    -A Argentina não faliu por causa do estatismo e do anticapitalismo, pois entre várias receitas neoliberais, ela privatizou tudo que pode. Mas é claro que perder receita e continuar com políticas populistas leva a ruína mais rápido.

  10. Igor Henrique disse:

    O comunismo é ruim, basta ver como andam os países onde ele foi vitorioso. Mas nem por isso vou defender o capitalismo com unhas e dentes e tanta convicção de que seria ele o modelo mais próximo de uma utopia. Todo sistema é bom, todo sistema é ruim; mais importante é quem governa.

  11. Os Bananas disse:

    Não sou nenhum fã do Capitalismo, mas sou contra todos que “endeusam” o socialismo e comunismo como se fossem a décima maravilha do mundo. Marx estava errado em muitas de suas análises e isso é preciso ser dito aos pseudo-intelectuais nos bancos acadêmicos das Universidades.

  12. Marcos disse:

    Sou artista, e sou fã do capitalismo. Viver às custas dos impostos daqueles que suam a camisa não me agrada. Não sou parasita, vivo do meu esforço, do meu talento, da minha arte. Vivo daquilo que faço melhor. Os artistas que recebem “incentivo cultural” do governo deviam se envergonhar. É o mesmo que receber uma mesada ‘di papai’, eu sei que o meu sucesso é só meu, tenho a mente e a consciência tranqüila. Não preciso me usufruir daqueles que trabalham honestamente, e honestamente não quero ver meus impostos desaparecerem e babozeiras como os tais “incentivos culturais.” Defendo o capitalismo por saber que ele é único sistema que não se rende à parasitose. Nada tirou mais gente da miséria do que o capitalismo. Não foram governos, não foram caridades nem ONGs, e nem igrejas – essas instituições podem até aliviar um pouco a pobreza, mas a miséria, só vc mesmo pode aliviá-la. O resto é papo de esquerdinha Marx. E é um papo pra lá de furado…

    • vera oliveria disse:

      hoje tem artistas e artistas,o proprio sistema capitalista é contra os verdadeiros artistas,é só pesquisar as gravadoras que barram alguns autores dizendo que suas musicas não são comerciais e porque não são comerciais??porque o sistema capitalista investe para que o povo não seja educado pra discernir uma coisa de outra coisa,pra pensar,refletir,questionar.O sistema capitalista precisa do povo idiotizado e claro um publico desse não vai apreciar a verdadeira arte.Vejam as musicas de hoje que vendem,madona,britney spers,luan santana,isso é arte????nunca foi e nunca será,de repente vc é um desses pseudos..fazer o que.fique tranquilo,quse ninguem vai perceber a diferença,pois eles não penam,sorte sua

      • Gunnar disse:

        Então você está dizendo que cada um dos indivíduos que compõe isso que você chama de “povo” é uma massa idiotizada, sem capacidade de discernimento própria, que precisa ser “educada” pelo governo a fim de saber o que é bom e o que não é? Na falta dessa “educação” do paizão estado, são um bando de ignorantes que se deixam levar pela primeira bobagem que aparece? Não existe vontade própria?

  13. Marcos disse:

    Acho curioso o fato de Von Mises fazer tantas afirmações a respeito das condições de vida dos trabalhadores no século XVIII e XIX sem apresentar nenhuma documentação que corrobore suas conclusões.

    Se vc pega as pesquisas de Edward Thompson a respeito da formação da classe operária inglesa que contradiz as afirmação de Von Mises, vc vai encontrar uma pesquisa lastreada em sólida pesquisa documental, digna do empirismo inglês.

    Ou, se vc pega a monumental obra de Braudel, vc acompanha a dieta das classes subalternas na Europa por 700 anos, lastreada a partir de um tratamento seriado de inúmeras fontes documentais. Sua conclusão? A dieta dos trabalhadores não melhorou no século XVIII e XIX e houve um significativo declínio na ingestão de carnes.

    Mas, claro, Von Mises só fala a verdade pura porque, afinal, ele é…..

    Não sei.

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