Quem disse que sou contra Zumbi?

Veio o 20 de novembro, dia da Consciência Negra, e muita gente me citou pra falar que Zumbi não merecia um feriado. Uma notinha no Zero Hora defendeu que talvez “a homenagem seja tremendamente injusta pois, segundo Leandro Narloch, Zumbi (ou, talvez, Zambi), era um tremendo mau-caráter, que capturava escravos nas fazendas vizinhas para trabalhos forçados no quilombo (…)”.

Preciso dizer: eu apoio a ideia do Dia da Consciência Negra e não tenho nada contra Zumbi. Digo no livro – e essa é uma das afirmações mais famosas do Guia – que Zumbi tinha escravos. A afirmação geralmente causa faniquitos na turma no Movimento Negro, mas é preciso entender o seguinte: não diminui Zumbi lembrar que ele provavelmente foi um rei negro com servos e escravos. No século 17, época em que viveu, não era um crime nem um pecado ter gente. Zumbi praticava um ato aceito pela lei, pela religião, por séculos de uma tradição tão antiga quanto o Remador de Ben-Hur. Não devemos condená-lo com os valores de hoje – nem ele nem os outros senhores escravistas, brancos ou negros, da mesma época.

A escravidão influenciou tanto o Brasil que merece, sim, um feriado à sua memória – e Zumbi é um personagem essencial dessa história. Para atestar a importância do homem, basta lembrar os modos e delicadezas com que o rei português escreveu a ele, em 1685:

Eu El-Rei faço saber a vós Capitão Zumbi dos Palmares que hei por bem perdoar-vos de todos os excessos que haveis praticado (…), e que assim o faço por entender que vossa rebeldia teve razão nas maldades praticadas por alguns maus senhores em desobediência às minhas reais ordens. Convido-vos a assistir em qualquer estância que vos convier, com vossa mulher e vossos filhos, e todos os vossos capitães, livres de qualquer cativeiro ou sujeição, como meus leais e fiéis súditos, sob minha real proteção.

Minha critica não é contra Zumbi, mas contra o que se fez com a imagem dele. O mito ganhou, de alguns historiadores combatentes de décadas atrás, o retrato de um herói socialista, igualitário, camarada – carimbos que não existiam no século 16.  Também acho que a estratégia atual da maior parte do movimento negro (de exigir reparações históricas e discriminações positivas) divide o pais e causa um ressentimento (estúpido) contra os negros. Isso faz mal a Zumbi.  Ele fica limitado a ser um herói apenas do movimento negro – quando é um ícone de toda a história do Brasil.

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6 respostas para Quem disse que sou contra Zumbi?

  1. Carlão disse:

    Caro Leandro,
    Acho despropositado querer algum tipo de reparação baseado em “dívida social” ou “injustiça histórica”.
    Primeiro: se você faz parte de uma relação de dívida, ou você é credor ou é devedor; se um determinado grupo (A) foi injustiçado por outro (B), então A é credor de B, certo? Como fica o resultado de casamentos entre indivíduos A e B (vamos chamar de AB)? É credor pela herança A ou devedor pela herança B? É mais credor tanto quanto for maior a herança A e mais devedor tanto quanto for maior a herança B? Fica estranho, não?
    Segundo: ao contrário do que é amplamente difundido por aí, negros e índios não foram os únicos grupos que sofreram alguma injustiça. Japoneses, alemães e italianos (e tenho o testemunho ocular de meu pai, filho de italianos) foram duramente discriminados e sofreram sanções reais durante a II Guerra. Confisco de bens, proibição de falar o idioma pátrio (ou o que aprendeu em casa) em público, além da má-educação e preconceito puro e simples advindo das autoridades e dos “brasileiros” em geral fizeram parte da realidade dos imigrantes e seus filhos. Não bastasse, outros grupos sofreram ainda com preconceito e humilhações diversas: árabes, judeus e o expressivo contingente de poloneses que se fixou principalmente no Paraná. Vai ter cotas para nipodescendentes? Para teuto-brasileiros? Para ítalo-brasileiros? Nunca.
    Por último, não se corrige uma injustiça com outra. A imigração japonesa iniciou-se em 1908, portanto 20 anos após a Abolição. Italianos também vieram quase todos após a Lei Áurea. Alemães podem até ter chegado antes, mas na condição de colonos sem escravos. Poloneses no Paraná, suíços na serra fluminense e pomeranos na serra capixaba têm história semelhantes. Por que seus descendentes (supondo-se que não se misturaram com quem tinha ascendência negra ou índia, o que é uma simplificação grosseira e uma inverdade) teriam de ser chamados a contribuir para o pagamento de uma dívida que não contraíram e de cujos supostos benefícios não usfruíram? Somente por assemelhar-se grosseiramente (e os japoneses, nem isso) aos “devedores”? Por serem “brancos”?

  2. Alan disse:

    Carlão, seu argumento não é simplesmente uma reclamação de racismo às avessas? Não vejo diferenças entre sua opinião e todas as outras, que em geral ignoram, propositalmente, a proporcionalidade das injustiças, ignoram a situação atual em que os povos se encontram. Anedotalmente, como alguem de descendência judaica estadunidense eu sei bem sobre o preconceito e injustiça aplicado aos meus antepassados. Contudo, devido à atual situação do judeu ‘mediano’ (particularmente ashkenazi) não acho que seria intelectualmente honesto pedir reparações ou ‘cotas’. E certamente acho que a situação pelo qual meus antepassados passaram não se compara em grau ou mesmo gênero com a situação pela qual os antepassados dos afro-brasileiros passaram.

    Leandro, vejo algo semelhante em seu argumento quanto aos índios. Sim, eles se matavam. Sim, qualquer caracterização sem nuances vai ser falsa. Mas que diferença faz? A história altera a situação atual do povo indígena? Teríamos visto o mesmo tipo de extinção de nações indígenas sem a interferência dos nossos antepassados? E a disparidade atual entre as populações indígena e portuguesa, é simplesmente um acidente? A intenção desse revisionismo histórico é simplesmente informativo ou existe alguma lição mais diretamente aplicável à nossa situação atual?

    • Carlão disse:

      Caro Alan,
      Já que você se dirigiu diretamente ao comentário feito anteriormente, seria pouco polido não responder. Vamos lá.
      Não, não reclamo de “racismo às avessas”. Primeiro, porque racismo é racismo, não importa de onde parta e para onde se dirija. Pode ser mais comum, digamos do grupo C para o grupo D (é mesmo mais comum? Tem algum estudo empírico que demonstre?), mas não quer dizer que não haja de D para C, certo? Segundo, não há nada no texto e no contexto que diga algo do tipo “tem afrodescendente cujos ancestrais saíram da África em tempos históricos que tem preconceito contra afrodescendentes cujos ancestrais emigraram da África em tempos pré-históricos, se estabeleceram na Eurásia e ao longo de sucessivas gerações desenvolveram características divergentes, tais como epiderme mais clara” (o Homo sapiens se originou na África e portanto portanto TODA a raça humana é “afrodescendente”). Não, eu disse simplesmente que outros grupos étnicos sofreram preconceito. Citei alemães, italianos, poloneses e japoneses. Pode pesquisar à vontade, as fontes são várias e abundantes. Muitas bibliotecas têm jornais e revistas da primeira metade do século passado. Leia as crônicas de Antonio de Alcântara Machado. Pergunte aos mais velhos. É óbvio que hoje ser descendente de imigrantes não é um fardo, porque os países de onde eles vieram hoje estão em situação bem melhor e porque seus filhos, netos e bisnetos prosperaram e prosperam à custa de muito estudo e trabalho. Fosse o Congo uma Suécia (em termos socioeconômicos, bem entendido), Angola um Portugal e o Quênia uma Alemanha, seria muito mais “chique” ser negro.

      Você tem “descendência judaica estadunidense”? Seus filhos são judeus dos EUA? Eu tenho ASCENDÊNCIA europeia, mas não considero que isso seja um argumento de autoridade. Nem se fossem judeus sefarditas ou etíopes. E discordo quanto a haver ou não reparações. Explico. O Holocausto aconteceu em tempos bem recentes. Há sobreviventes ainda vivos. Foi obra de um governo, de um Estado contra um grupo. A Alemanha até hoje procura sobreviventes e herdeiros para restituir o que lhes foi roubado porque ainda é possível saber quem é quem. Contribui com o Estado de Israel em parte pela culpa do Holocausto, mas também porque o fariam de qualquer modo. Outros países dão apoio até maior a Israel, como os EUA. Você acha desonesto pedir cotas só por ser judeu? Muito bem, concordo contigo. Reparações financeiras não são para qualquer judeu, são para os que foram vítimas do terror nazista e seus descendentes. E há um detalhe importante: “judeu” é quem se converte ao judaísmo ou quem nasce de mãe judia. Ninguém fica na UnB olhando foto de candidato e vendo se ele tem cara de judeu, orelha de judeu, nariz de judeu. Fazem isso com fotos de candidatos para ver se ele é “negro” o bastante para “merecer” a cota. Lindo, não?

      Por que negros e pardos precisariam de cotas para entrar em boas universidades públicas? As boas escolas particulares só deixam brancos e japoneses estudarem lá? Claro que não. O problema é outro. Se você for “branco”, pode ser rico, classe média ou pobre. Os ricos estudam em boas escolas pagas e vão para boas universidades públicas. Os outros, vão para universidades que não são lá uma Brastemp, se forem. Ocorre que negros e pardos ricos são ainda raros no Brasil, o que mascara o problema. Criar as tais cotas é populismo e concessão a grupos de pressão, esconde um problema e cria outro. Esconde que é necessário melhorar muito as escolas públicas onde estudam os pobres, para que estes possam entrar em boas universidades. Cria o problema de acirrar conflitos raciais: explique a um branco pobre (existem às pencas, sabia?) que ele não pode entrar na universidade, mas que o colega negro ou pardo (às vezes de condição socioeconômica até melhor) tem cota. O que você faria?

      Ficou longo, mas foi necessário. Abração do Carlão.

  3. Lúcido e coerente o teu texto. Estamos de tal forma afogado em nossos mitos, e é tão difícil encontrar no Brasil quem baseie seus conhecimentos de História em documentos e não apenas na repetição desses mitos, que qualquer fala difusa do discurso comum gera ruídos como este da notinha em Zero Hora… Sou fão do teu livro e estou à espera de outros volumes futuros. Um abraço!

  4. Felipe Flexa disse:

    Eu sempre fico meio com o pé atrás quando me pedem para não julgar as pessoas com os
    “valores de nosso tempo”, Leandro. Isso tem um certo cheiro de relativismo. Quando crucificar pessoas era “normal”, “coisa daqueles tempos”, vozes do Senado romano se rebelaram contra o uso do “carrasco, da cruz e da corda’. Achavam que não era lícito executar pessoas daquela maneira. Isso na época de Jesus. Quando era normal arrancar narizes de índios, torturá-los e espancá-los, Frei Bartolomeu de Las Casas se insurgiu contra isso, e ele era um “homem de seu tempo”. Ser contra a escravidão, ser contra mortes e torturas atrozes independe do tempo. José Bonifácio era um homem de seu tempo e era a favor da abolição da escravatura (gradual, para que a sociedade absorvesse os negros libertos). Se Zumbi possuía escravos, com certeza devia haver negros contra este procedimento. Não dá pra livrar a cara de um escravo que fazia escravos dizendo que naquela época era assim…

    • Ótimo comentário, Felipe!
      Também abomino o relativismo para julgar ações dos dias de hoje, mas acho que, como ferramenta histórica e antropológica, ele é uma premissa básica. Sim, o Zumbi deve ser perdoado, e os senhores de engenho e outros escravistas da época, também. Não significa que vamos aceitar ou elogiar as ações deles, só entender como pensavam. José Bonifácio deve ser aplaudido mesmo – montou uma fazenda sem escravos em 1819. Estava à frente de seu tempo. E as outras pessoas? Estavam somente em seu tempo.
      abrx!

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