Números saborosos

Passei o dia remexendo bancos de dados do IPEA e do IBGE atrás de estatísticas dos anos 60 e 70. Achei coisas ótimas. Todas retrucam aquela velha ideia de que o milagre econômico, durante a ditadura militar, foi inválido porque aumentou a desigualdade e “concentrou a riqueza na mão de poucos”, como se diz por aí.

A desigualdade social de fato aumentou – o que, em si, não é uma má notícia. Bangladesh e Casaquistão têm hoje índices de desigualdade menores que os Estados Unidos – mas todos nós sabemos onde preferíamos viver.

Além do mais, enquanto a desigualdade aumentava, outros índices se movimentavam. Veja só alguns deles:

– Entre 1970 e 1980, o Índice de Desenvolvimento Humano aumentou de 0,462 para 0,685. O maior crescimento da história do país.

– A expectativa aumentou 9 anos na mesma década. O maior crescimento da história do país.

– A mortalidade infantil, que aumentou entre 1955 e 1965, chegando a 131 mortes a cada 1000 nascimentos, caiu para 113 em 1975. Cinco anos depois, despencou para 70 mortes a cada mil nascimentos. A maior redução da história do país.

– A venda de geladeiras (item básico para uma boa alimentação) quadruplicou em doze anos. Equivale à onda de consumo do Plano Real.

– A venda de livros triplicou entre 1964 e 1974. Em dez anos, passamos a imprimir 100 milhões de livros a mais.

Números assim não justificam torturas e perseguições políticas dos militares. Nem as eternas lamúrias da desigualdade social.

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8 respostas para Números saborosos

  1. Prezado sr. Narloch.

    Descobri seu livro numa compra na livraria. O nome me mostrou tão interessante que não não resisti e o comprei. Parabenizo-o pelo trabalho e dedicação. Vivemos uma ressaca do século XX, com suas loucuras e ideologias idiotas. Acredito que neste século as coisas serão menos apaixonadas e mais pé no chão.
    Tenho 29 anos, sou geógrafo graduado pela Universidade Federal de Minas Gerais e muitas das “verdades” que você abala e critica no livro do livro me faziam a cabeça na época do pré-vestibular. Depois fui amadurecendo e vendo que a história não é assim tão preto-em-branco, mas muito mais complexa do que imaginamos. Claro, já fui até perseguido por um professor que me deu zero numa questão apenas por discordar da sua visão “crítica” (leia-se marxista). Mas a maioria dos meus professores se mostrou mais aberta ao diálogo.
    Continue com seu trabalho e com a certeza de precisamos de uma história menos ideologia e mais comprometida com a veracidade das fatos.

    Parabéns!

  2. Peço desculpas pelos erros de digitação acima.

  3. Hideo Chinen Junior disse:

    Conheci o sítio hoje e a primeira matéria que eu leio parece ser o contrário do que o título desse propõe, e com inclinações suspeitas. o mínimo que eu penso ser de ratificação imprescindível é o fato do artigo tratar do milagre econômico sem mencionar a dívida externa que cresceu exponencialmente no período, aliada a uma política de “pegar todos os empréstimos que o Brasil puder” convenientemente iniciada na mesma época em que ocorria um excesso de capital nos E.U.A. que precisavam ser investidos fora do país. Tentar superficializar o problema da desigualdade de renda é irresponsável, talvez poderia-se perguntar qual daqueles países tem melhores perspectivas de democracia.

    Saiba que o senhor, infelizmente, não é o único tentando polir a história da ditadura.

    • Capslock disse:

      Ai, saco! Além da lenga-lenga da concentração de renda, ainda tem essa historinha da dívida externa… que nada tem a ver com o “excesso de capital dos EUA”. O descontrole da dívida externa deveu-se aos sucessivos déficts na balança comercial provocados pela alta no preço do petróleo. Países importadores (EUA, inclusive) passaram por maus bocados nessa época: endividamento, ‘stagflation’, etc… se havia países com “excesso de capital”, estes certamente eram membros da OPEP.

  4. Fernando José disse:

    No futuro, não será mais possível fazer um levantamento como esse, Leandro. Desde que Lula e o PT chegaram ao poder, o IPEA e o IBGE foram totalmente aparelhados por amigos do partido, para jogar os índices econômicos e sociais para cima, maqueando as deficiências do país, como a educação e a saúde, por exemplo. Será difícil para os futuros historiadores mostrar os reais resultados dos oito anos da era Lula – supondo-se que ela termine um dia, é claro.

  5. Pingback: Números saborosos (via Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil) « Lux Lucet in Tenebris

  6. Miguel Soares disse:

    Os EUA são preferíveis ao Bangladesh porque são mais ricos e desenvolvidos. Compare-se os EUA com países com níveis equivalentes de riqueza e desenvolvimento, mas com menos desigualdade social, e a conversa muda de figura. Os EUA constituem de longe o país do chamado “mundo industrializado” com maior criminalidade, menor expectativa de vida e maiores índices de depressão e suicídio. Bem sei que o mito é dizer que isso do suicídio é na Suécia, guess what? It’s not.

  7. zé do rock disse:

    Claro, se num país A o pobre ganha 10 e o rico ganha 100, e no país B os pobres passam a ganhar 50 e os ricos 1000, a desigualdade social no país B é maior (os ricos ganham 20 vezes mais, no país A só 10 vezes mais), e mesmo acim os pobres do país B ganham 5 vezes mais.

    Eu suponho que os pobres tenham passado a ganhar mais na ditadura militar, mas a economia mundial em geral ta em crescimento, seja cual for o tipo de governo (com exceçao talvez dos países comunistas em algumas ou várias épocas), entao a questao nao seria o cuanto os pobres melhoraram em relaçao aos ricos e sim cuanto os pobres melhoraram em relaçao aos pobres de todos os outros países. Mas acho que pra isso nao existe estatística…

    Existe o IDH, que da uma certa ideia, mas Leandro, onde você achou IDH pros anos 60 e 70? Pelo que eu saiba ele foi inventado no começo dos anos 90… ou existem cálculos “retroativos”?

    A taxa de suicidio nao parece ter muito a ver com a cualidade de vida. Dos 10 países com a maior taxa de suicidio, a maioria vem do ex-bloco comunista, que nao sao nem ricos nem pobres. Pela lista da wikipedia, os EUA sao numero 39 de 106 países computados, ou seja, “médios”.

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