Por que o Nordeste é pobre?

Não é porque coronéis exploram os miseráveis, mas o contrário: os ricos nordestinos exploram pouco a mão-de-obra barata que têm ao redor.

Choveu demais, rios encheram, cidades foram embora com a correnteza e todos voltaram a falar da miséria do Nordeste. Na TV, o Arnaldo Jabor contou sobre uma viagem recente a Alagoas – “parecia um deserto vermelho de barro, pontilhado de miseráveis vilarejos” onde perambulavam “vassalos do feudalismo nordestino”, “laranjas das oligarquias”. Há um sentimento geral de que a pobreza nordestina é fruto da exploração de coronéis e latifundiários que não dividem suas terras, pagam salários miseráveis e mandam na política metendo o cacete nos fracos e oprimidos.

Eu gostaria de defender o contrário. O Nordeste é pobre não porque ricos exploram a miséria, e sim porque exploram pouco a mão-de-obra barata que têm ao seu redor.

Vejam o caso da explosão da fruticultura. Até os anos 90, só havia no sertão nordestino plantações centenárias de cana-de-açúcar e algodão, além de roças de subsistência daqueles que não tinham migrado para o Sudeste. De repente, multinacionais e agricultores resolveram aproveitar o preço barato das terras e da mão-de-obra, a alta insolação (que provoca mais safras por ano) e a baixa umidade (menos pragas). No fim dos anos 80, enquanto sertanejos abandonavam seus casebres e se mudavam para São Paulo, 150 famílias do interior de São Paulo e do norte do Paraná, descendentes de japoneses, foram montar roças irrigadas perto do Rio São Francisco. Um desses migrantes, Mamuro Yamamoto, virou de cara o maior produtor de uvas e amora do Nordeste. Vinícolas gaúchas logo estabeleceram filiais por lá. Hoje o sertão não tem só bons vinhos como produz, segundo o Embrapa, 95% das uvas de exportação do país. De todas as frutas frescas que o Brasil exporta, 80% vem de lá. Na Paraíba, em Sergipe e na Bahia, agroindústrias fizeram a região peitar São Paulo na produção de suco de laranja. A fruticultura é uma das áreas que mais geram empregos formais – só em 2005, 245 mil pessoas conseguiram emprego nas agroindústrias nordestinas.

O mesmo fenômeno começa a acontecer nas indústrias. O investimento de grandes empresas faz alguns estados terem um crescimento chinês. Os empregos industriais no Ceará aumentaram 8,9% em um ano. A renda de Pernambuco cresceu quase 10% de 2009 para cá. Com números assim, a participação do Nordeste no PIB do Brasil vai aos poucos aumentando – e a região caminha para deixar de ser um estorvo para o país.

Quando os “ricos e poderosos” do Nordeste viram políticos da indústria da seca, eleitos à base de caminhões pipa e do bolsa-família, deixam de ganhar dinheiro. E ainda mantém uma miséria que deveria migrar rumo aos empregos (como acontece nos EUA, país não vê problemas em ter cidades-fantasmas). Para a miséria do Nordeste se resolver, os coronéis, os latifundiários, os nordestinos de classe média precisam ser mais capitalistas, mais gananciosos. Só assim vão parar de ver seus pobres migrar para o Sudeste em busca de ricos que os explorem de verdade.

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

7 respostas para Por que o Nordeste é pobre?

  1. Gustavo Sandres disse:

    Meu caro Leandro,

    Sou nordestino, nascido em Gravatá(agreste PE), resido em Recife. Sempre que leio algo assim, como o texto acima, de sua autoria, sinto-me cada vez mais ultrajado e lesado pela educação que recebi. Por que ninguém me disse antes? Por que tive de passar tanto tempo acreditando em tantas mentiras? Não que você seja a verdade absoluta, mas por que não fui instigado antes a fazer essa reflexão? Quantos anos perdidos, mas nem tudo são lamentos. Tenho encontrado há algum tempo, muitos autores preocupados em reverter esse quadro, Frederico Pernambucano de Melo, Gilberto Freyre, são bons exemplos de uma visão mais aprofundada de nossas questões históricas. Parabéns Leandro, já comprei mais de cinco exemplares do seu livro e dei de presente. Suas informações merecem um maior alcance e destaque.

  2. Angelo Breckenfeld disse:

    Concordo com o raciocínio, apenas um reparo. Não existiam plantações centenárias de cana de açucar no Sertão, apenas na Zona da Mata e parte do Agreste. No mais concordo plenamente.

  3. Pingback: Por que o Nordeste é pobre? « De Gustibus Non Est Disputandum

  4. Lobe Junior disse:

    Prezado amigo,
    Sim a sub-utilização da mão de obra é um dos problemas do nordeste. Mas não espere que os “coronéis” mudem e, buscando lucro, passem a dar emprego.
    Aos “coroneis” o poder é mais importante que o dinheiro. Seu objetivo é manter a população subjulgada debaixo de suas botas, tanto é assim que um dos problemas dos “sulistas” que lá investem é vencer a resistencia destes “lideres” regionais e suas teias de favores e corrupção.

    • Carlos Branco disse:

      Junior e Leando,
      essa questão de coronéis terão cede pelo poder e não pelo dinheiro é algo que não compreendo até hoje, moro no Sul do Brasil, no Sul do Paraná, em uma cidade chamada Clevelândia, por anos e anos minha cidade foi uma das mais ricas e importantes do Sul do Brasil, que por falta de historiadores, nossa historia foi jogada por debaixo do tapete e reecontadas por historiadores de outros locais que não deram a devida importancia, mas aqui ainda existem os coronéis, da madeira e da lavoura, que fazem de tudo para não abrir empresas na cidade para a mão de obra barata não se tornar cara, serei historiador, mas uma coisa que digo a todos aqui, querem instalar uma empresa venha pra cá, mão de obra extremamente barata, custo de vida barato e muita energia, mas só tenho 19 anos e não sou “poderoso” ninguém me ouve. UHAHUAHSUHUSHAUSA

  5. zé do rock disse:

    bom, o nordeste nem é tao pobre assim. o estado com o menor IDH (índice de desenvolvimento humano) é o alagoas, que tem um IDH comparavel ao da áfrica do sul, que é um dos países mais ricos da áfrica…

    claro, isso é uma sacanagim statistica, porquê a áfrica do sul tem um IDH baxo principalment por causa das muitas morts prematuras causadas pela AIDS i pela criminalidad. mais o antpenúltimo stado é o piauí, ki tem um IDH ekivalent ao do ejito, ki nao é um ricasso mais tamem nao é dos mais pobris… eu divido o mundo im 3, como si fazia antigament, com primero, sigundo i tercero mundo, com a subclassificaçao ‘alto’, ‘médio’ i `baxo`. o nordest seria baxo sigundo mundo (o brasil como um todo alto sigundo mundo, u sul i u sudest seria baxu primeru mundu).

  6. rogerio disse:

    em que época o nordeste foi a região mais rica do brasil?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s