Kabengele, tá lembrado?

Impressionante como um sujeito sacrifica toda a carreira acadêmica em prol de uma causa. Na Folha de hoje, o antropólogo Kabengele Munanga, da USP (tinha que ser da USP), reproduz a amnésia ideológica do historiador Luiz Felipe de Alencastro sobre a participação de africanos no tráfico de escravos.

Diz o Kabengele: “Mas isto é certo: nenhum navio negreiro era propriedade dos africanos e nenhum traficante africano atravessou mares e oceanos para vender seus “irmãos” no exterior. Ao dizer isso em outros termos, o professor Luiz Felipe de Alencastro não está tendo nenhuma amnésia ideológica, como o sugere o geógrafo Demétrio Magnoli.”

Pô, Kabenele, como assim? Para refrescar sua memória, cito abaixo alguns episódios do Guia, quase todos tirados da obra de Pierre Verger.

– Entre 1750 e 1811, embaixadores africanos foram à Bahia e a Portugal com o objetivo de negociar o preço de escravos e pedir o monopólio de venda aos portugueses. Segundo o etnógrafo Pierre Verger, foram quatro viagens diplomáticas de enviados do rei do Daomé, duas dos reis de Onim (hoje Lagos) e outra do chefe de Ardra (Porto Novo). Tanto no Brasil quanto na corte em Portugal, os diplomatas e seus auxiliares foram recebidos com luxo. É difícil imaginar que não trouxeram escravos para os servir durante as viagens pelo Atlântico.

– No auge de seu poder, o rei africano Kosoko, de Lagos, hoje capital da Nigéria, resolveu dar um presente
para três de seus filhos. Mandou-os para uma espécie de intercâmbio estudantil do outro lado do
Atlântico, provavelmente de carona num navio negreiro cheio de escravos que havia vendido.

– Em 1781, o príncipe Guinguin foi carregado por seus súditos “a bordo de um navio português para ser levado ao Brasil, onde foi educado”, conta Pierre Verger. “Forneceram-lhe vinte escravos para sua subsistência.”

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8 respostas para Kabengele, tá lembrado?

  1. Adriano Brandão disse:

    Ô, Narloch! É bizarro o Kabengele Munanga imaginar a existência de algum sentimento de “fraternidade” racial nos séculos 17 e 18. Ou algum conceito de “africanidade”. Isso é ridículo e, sim, amnésia ideológica.

    (Mas corrige aí: a capital da Nigéria é Abuja, não Lagos, há uns 20 anos.)

  2. Amanda disse:

    Vi ontem vc no programa da Olga Bongiovani. Vou procurar o livro para comprar! Estou cursando História e aceito sugestões suas de outros livros que sejam importantes para uma futura profª!

  3. Wilson disse:

    Leandro, não valeria a pena publicar a reposta do Senador Demóstenes Torres ao Elio Gaspari publicado na Folha deste domingo?

    Um abraço.

  4. Olá,

    Nunca custa lembrar que apesar da participação de negros no tráfico negreiro, todos os escravizados eram negros. Desta forma, se tentarmos atenuar algum tipo de não-vitimização por parte dos negros no Brasil, não iremos muito longe com esse tipo de argumento: negros escravizaram negros. Sim, mas quem fora escravizado nunca deixo de ser negro.

  5. Marcos disse:

    Narloch, vc devia fazer uma pesquisa sobre a chamada “Capoeira Angola”, uma versão mais “Nagô” da capoeira que realmente parece que não veio da Angola, e tem pouco ou nada a ver com a capoeira que nós conhecemos, e que também virou produto lucrativo de exportação para o exterior.

  6. marcosrrs21 disse:

    Ora Leandro,

    nenhum dos eventos relatados desmente Alencastro. Não eram navios negreiros. Os navios eram de corpos diplomáticos, se tinham escravos não eram mercadorias, e sim propriedades destes embaixadores. Mas nem isso sabemos. Vc mesmo diz: “É difícil imaginar que não trouxeram escravos para os servir durante as viagens pelo Atlântico.”. É difícil imaginar…mas não há nada que diga o contrário. Mesma crítica para o Gauguin. os 20 escravos não eram mercadoria para o Novo Mundo, mas propriedade do africano. (segundo sua própria frase).
    No caso do príncipe de Lagos, a carga poderia ter sido vendida pelo africano, mas e o barco? Europeu.

    Fiz várias críticas duras em meu novo blog sobre o seu capítulo II. Dê uma olhada.

    http://letrasepalavras.wordpress.com/

    um abraço,
    Marcos

  7. Armando do Prado disse:

    A história está sendo reescrita permanentemente, mas é preciso estar atento ao tipo que busca apenas luzes, “quinze minutos” de fama ou então, simplesmente, chocar gregos e troianos. Muita calma nessa hora.

  8. Opiniao de uma leitora de “pele” “negra” Brasileira !

    Leandro Narloch -O seu livro e uma luz na escuridao do falso moralismo disfarçado do povo Brasileiro…

    Marcorrrr ou sabe là qual é o seu verdadeiro sobrenome!

    Criticou deu voltas e nao chegou a lugar nenhum!!Chamou minha atençao ate a sua pagina e no fim, desse comentario, salada mista, nao chegou a nenhuma logica CONCRETA em suas analises criticas !

    A verdade e que a sua critica mostra um belo exemplo do falso moralismo de muitos Brasileiros que olham a questao “escravidao” e “negros” de uma forma muito subjetiva!Se consideram “brancos” em uma naçao de mestiços, o mesmo vale para os negros ignorantes que nunca pisaram na Africa e se acham 100% afro!

    Use essa energia para escrever idéias originais do quanto essas historias, sem nenhum fundamento historico CONCRETO, ainda hoje sustentam a politica de clientelas racias no Brasil!

    Nao estou aqui para filosofar,ainda nao tenho teclado correto e nem tempo para isso..mas deixo tb a minha critica !

    Irei seguir sua pagina e se alguma coisa de verdadeiramente de interessante surgir eu estarei aqui para te dar os parabéns…

    Até mais..

    Livia Zaruty

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