As cotas e os argumentos da história

Dia desses, já umas semanas atrás, o senador Demóstenes Torres falou contra as cotas argumentando que a escravidão já existia na África e também foi operada por negros no Brasil. Quem leu o meu livro sabe que ele está cheio de informações como essas – um amigo meu acha até que o Demóstenes tirou o que disse do Guia. Apesar de apreciar a coragem do senador ao fazer essas afirmações, e repetir até para a porta do elevador que Zumbi tinha escravos, que os portugueses aprenderam a comprar escravos com os africanos e que o sonho da maioria dos negros era ter escravos para si próprios, não acho que isso seja um argumento contra as cotas.

A turma das cotas pede reparação não a ações particulares, de indivíduos, mas do Estado, que permitiu a escravidão negra. É o Estado que ofereceria as vagas nas universidades – e todos, brancos, mulatos e negros, pagam o Estado hoje. Eis aí um bom argumento a favor da reparação.

– Quer dizer então que você, que se diz politicamente incorreto, é favor das cotas?

Não.

Sou contra, mas não por motivos históricos. Acho que devemos deixar a história de lado nesse debate, pra não ficarmos com dezenas de passados e nenhum futuro. O que deve balizar o debate das cotas é o presente – os benefícios das cotas aos brasileiros e aos negros hoje. E nisso, amigo, as cotas são terríveis para os negros. Eles deveriam ser os primeiros a repudiá-las. Alguns já são. Como diz o intelectual negro americano John McWorther (meu herói), elas aumentam o estigma da cor e colocam em dúvida o esforço individual dos que se beneficiam delas. “A pior coisa que pode acontecer aos negros é que seu mérito seja colocado em dúvida. Eles devem ser reconhecidos por chegar à universidade por mérito próprio”, diz ele.

Voltando à história, o debate sobre as cotas rendeu esses dias um princípio de quebra-pau muito divertido. No Entre Aspas da GloboNews, o Jorge Caldeira (meu herói) bateu boca com seu Rafael Marquese, da USP, que estuda os discursos pró e contra a escravidão no século 19. Engraçado que nem eles se entendem sobre a história do Brasil.

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15 respostas para As cotas e os argumentos da história

  1. Meira disse:

    O argumento de uma dívida deixada é inválido, quase como todo argumento de compesacao…

    O único argumento plausível para cotas é aquele que contempla uma dificuldade ou deficiência irremediável…

  2. Na verdade o senador não usou esse fato como argumento. Isso foi citado para dar exemplo do quanto a história da escravidão é desconhecida.
    Ele citou algumas afirmações feitas nas sessões do senado da Comissão de Constituição e Justiça da qual faz parte e que convida cidadãos para a discussão da lei de cotas..
    Veja o pronunciamento completo aqui:
    http://nacaomestica.org/blog4/?p=645
    O desconhecimento é o responsável por muitas atitudes agressivas e conclusões disparatadas. O caso das cotas não pode ser regulado pelo politicamente correto, mas sim julgado à luz da constituição brasileira. É a constituição que rege a vida e os negócios da nação e nela, todos são iguais perante a lei. O Supremo está julgando se a lei de cotas fere ou não a Constituição brasileira.

  3. Vitor disse:

    É verdade Leandro. Se teu livro tiver ajudado a colocar mais um prego no caixão do DEM, por si só, já merece várias reedições.

  4. Será que o Vitor “leu mesmo” o seu post? Estou duvidando…
    Não tem nada a ver o c… com as calças!
    Analfabetismo funcional é isso ai! Lê e não entende o que leu!

  5. Prezadíssimo:

    As cotas dão – e ainda vão dar – muito “pano p’ra manga”.
    Mas APENAS por que tratam do (delicado?) assunto da pele negra.
    Minoria? Só se for na Finlândia.
    Cadê a cota para ruivos-sardentos?
    Isso, sim, é discriminação…
    (Quantos ruivos VOCÊ conhece?)

    Amplexos,
    prof Paulo Maximo, MSc

  6. Rafael Ferraresso disse:

    A ideia original do próprio movimento negro nunca foi a cota, e sim uma indenização de Portugal (à que a Alemanha ainda paga pelo Holocausto) para cada cidadão brasileiro que comprovasse que era até da 3ª geração de um ex-escravo. Isso ia falir o tesouro português, que — com o governo do Brasil redemocratizado — engavetou o projeto até a Era Lula, que, no samba do crioulo doido que é falar ser de esquerda e fã do capitalismo do Amartya Sen ao mesmo tempo, incentivou qualquer ação afirmativa querendo tapar cada buraco do celeiro onde a gente vive com projeto social. Nesse oba oba, veio da reserva de vaga na universidade até um Ministério da Igualdade Racial.

    E o que rola, hoje, é uma confusão do caralho. A direita, alienada, ignora os 70 anos de apartheid econômico — que, com o empresariado querendo “branquear a nação” de um lado e nenhum negro alforriado preferindo a pequena propriedade rural no que virou a favela do outro, fora a grilagem de terra da Revolução Industrial enchendo a Europa de sem terra que se deixasse de mandar para a América ia dar merda, jogou 70% da “comunidade negra” na “classe D” — e que a ascensão por mérito propriamemte dita (que ia igualar o rico com o pobre) é, 9 em 10 vezes, uma piada cruel da sociedade darwinista, ela mercantil ou não; o mainstream do que se aprendeu a chamar de esquerda, alienado pela fuga do libertário e a história oito e oitenta do Marx (vide a treta da Primeira Internacional que fez anarquista dar risada tanto de conservador quanto de partido revolucionário), acha ou que é justiça ou que o Estado devia agilizar a tomada de poder do trabalhador abrindo mão de curar ferida do capital.

    No fim, uma piada. Todo mundo com um pouco de noção sabe que — numa vida que educa para adquir bens, cuja liberdade é só para o individual no que a disciplina da ideologia de interesse (que fazia o escravo sonhar em ser senhor e faz o empregado sonhar em ser empresário) deixar, cheia de preconceito — no geral, pobre não presta vestibular. Que dirá preto.

    • Chirlei disse:

      Fico pasma com tantos argumentos rasos a respeito do sistema de cotas dentro da perspectiva de acões afirmativas. A falta de informação causa perplexidade… Que pena!!!

  7. Wilson disse:

    Leandro,

    Como você, eu também sou contra as cotas raciais, uma barca furada financiada pela Fundação Ford.
    É mais um estigma para os negros, classifica as pessoas pela raça, uma coisa do século XIX, como tanto citaram os dois professores a favor das cotas no programa e exclui os índios e os brancos pobres, cuja dificuldade de ascensão também é grande.
    Por isso, sou a favor de cotas sociais, o sujeito ganha um acréscimo na nota do vestibular se tiver estudado em escola pública.
    Mas o grande entrave à igualdade de oportunidades no Brasil se chama escola pública (fundamental e média), enquanto ela for a catástrofe que é hoje, não há política compensatória que nos tire deste atraso social.
    Quanto ao debate, achei que tanto o Marquese quanto o Paixão foram desonestos com o Senador Demóstenes ao dizer que os argumentos dele eram os mesmos dos escravagistas do século XIX. O que o Senador disse o Caldeira também disse: por muitos séculos a escravidão foi uma coisa moralmente aceita tanto por brancos como por negros.
    Também achei muito curioso o contorcionismo de argumentos do Rafael Marquese, típico dos fundamentalistas. Se o fato vai contra seu argumento, arranja-se outro, o que vale é provar a tese.
    Preste atenção aos argumentos do Marquese. Ele vai se contorcendo e mudando o discurso a cada argumento do Jorge Caldeira (também meu herói). O Marquese começa defendendo a necessidade de reparação aos negros e liga os discurso contra as cotas ao discurso escravagista do século XIX. Ai o Caldeira fala que eles esqueceram os índios (lá pelos 12m30s). O Marquese passa então a usar o argumento do peso demográfico acumulado, os negros seriam muito mais, como se isso justificasse a exclusão dos índios. O Caldeira, então, contesta este argumento dizendo que os índios eram em número maior. O Marquese claramente se perde, tropeça no pensamento e fala em considerar o aspecto “de longo prazo”, cita alguns números que o Caldeira contesta novamente. O Marquese (19m50s) muda de argumento de novo, agora a questão central para ele é que o parlamento brasileiro proibiu e depois liberou o tráfico. O Caldeira volta à carga e nos informa que o parlamento nunca aprovou um única lei liberando. O Marquese apela e diz: nem precisava aprovar uma lei. E, finalmente, ele usa o argumento de fato essencial por trás de sua defesa das cotas, foi um conluio das elites conservadoras que liberaram o tráfico, etc. Enfim, a consciência de culpa do Marquese exige que a elite branca pague.
    Fiquei animado quando o Marquese fala do hiato entre a escola pública básica e a universidade, mas foi fogo de palha, pois ele me assombra mais um vez com um conceito para lá de estranho: a Universidade pública está sendo privatizada porque invadida pelo alunos egressos das escolas particulares. Será que ele quer dizer que nós da classe média não somos cidadãos merecedores de cursar uma universidade pública? Teríamos nós a marca da maldade da elite branca escravista? E se o egresso da escola privada, só faltou dizer neoliberal, for um negro, como fica?

    Um abraço e parabéns pelo blog.

    Wilson

  8. Charada disse:

    “no geral, pobre não presta vestibular. Que dirá preto.”

    E o crescimento absurdo no número de faculdades particulares, quase todas subsidiadas pelo ProUni (uma vez que quem as frequenta provém, geralmente, das classes B e C)? Perdi algo aí??

  9. Li o comentário do Rafael Ferraresso e não entendi nada!
    Acho que agora EU virei analfabeta funcional!
    Ou será que não?

  10. Cara, o melhor método para entrar no vestibular é sorteio. Sério. Os ricos que ficarem de fora vão estudar em privadas e exigir uma melhora do nível de ensino, acabando com as universidades caça-níqueis. E pelo menos alguns pobres terão chance. Sorteio, esta é a solução.

  11. Mila do Monte disse:

    Boa tarde,

    Estou um pouco atrasada neste debate porém, gostaria de deixar minha muito humilde opinião.
    Leandro lí seu livro gostei muito, apesar de não ter me apresentado nada de novo (além da parte do Alejadinho, muito bom!). Acrideto que seu livro possa ser mal interpretado, por isso não pretendo usá-lo como material didádico em minhas aulas (sou professore de História).
    Sobre as cotas, da maneira que esta política está sendo implementada no Brasil, eu não concordo. Porém, como sou negra e estudei em colégio público adimito, com medo de ser chamada de ignorante, não sei o que é um professor de Física e química, apesar de ter tido aulas de matemática até a sexta série.
    Tirando isso, passei no vestibular de uma Universidade pública, confesso que chutei a maior parte da prova e fiz só porque não paguei para fazer. Na universidade era, na maioria das vezes a única negra na sala de aula. Não quero levar muito adiante, mas graças a Deus (nem acredito em Deus sabiam?) tive sorte e passei no vestibular chutando de primeira e hoje sou formada e sai da Favela que morava no Rio, Jardim Catarina em São Gonçalo, moro numa casa maneira na Villa Madalena em SP e tenho um emprego.
    Desejo que todos os negro e pobres que vivem em favelas e estudam na rede pública tenham a mesma sorte que eu tive sem as cotas.
    Se não tivesse a sorte do meu lado, hoje estaria trabalhando em casa de família até hoje, que era que eu fazia (escondido dos meus amigos da graduação,é claro) para pagar livros, xerox, passagens. Nada contra este trabalho, que ainda faço na minha casa pq as diaristas não sabem lipar a minha cass direito.
    Realmente a política de cotas iria sim melhorar a situação de muitos humildes, porém essa politica não deve ser encarada como de longo prazo. Tem que fazer parte de uma coisa muito maior, da melhoria do ensino publico e privado no Brasil para que a política de cotas não durem mais que sei lá, 10 anos.
    Acho que hoje ser contra as cotas e ser a favor de milhoes de negro pobres limpando a casa de vocês. Algumas pessoas até ficam com raiva porque eu parei de faser faxina! Escutei, você vai se formar pra quê? Você já tem trabalho! Perpetuar a nossa submissão.

  12. vitor sampaio disse:

    olha, tenho apenas 16 anos, mas consigo perceber que as cotas são uma estratégia o governo para simplismente cobrir o real problema, as fracas escolas publicas. Não é algo facil melhorar o ensino da noite para o dia, porém se houvesse certo esforço do governo para melhorar, talvez, só talvez, tornasse essa situação um pouco mais simples. Com uma boa escola pública, os mais pobres teriam condições de lutar por vagas em universidades. esta é minha humilde opinião

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